Em Literatura

A Filha Perdida | Elena Ferrante


Autora: Elena Ferrante
Editora: Intrínseca
176 Páginas
5 estrelas
Sinopse: Aliviada depois de as filhas crescidas se mudarem para o Canadá com o pai, Leda decide tirar férias no litoral sul da Itália. Logo nos primeiros dias na praia, ela volta a atenção para uma grande família napolitana, barulhenta e grosseira, semelhante a sua própria família de origem, da qual conseguiu escapar aos dezoito anos para estudar em Florença. Sentindo por eles uma mistura de repulsa e fascínio, Leda se identifica em especial com Nina, uma jovem mãe, e Elena, sua filha pequena, e se envolve cada vez mais com as duas e com o objeto de afeto da menina, uma boneca. Nina inicialmente parece ser a mãe perfeita e faz Leda se lembrar de si mesma quando jovem e cheia de expectativas. A aproximação das duas, porém, desencadeia em Leda uma enxurrada de lembranças, da infância infeliz a segredos da vida adulta que ela nunca conseguiu relevar a ninguém. 

A história 

A Filha Perdida foi o meu primeiro contato com a autora Elena Ferrante. O livro narra parte da vida de Leda, professora universitária que, aliviada pelas filhas terem ido morar com o pai no Canadá, decide tirar alguns dias de férias na praia com a intenção de descansar e preparar o próximo período letivo. Assim, sozinha, ela aluga um apartamento, junta livros e roupas e parte para o que todo mundo sabe que é, mas às vezes ignora, uma viagem sozinha: uma jornada de autoconhecimento e, em alguns momentos, desconforto. 

Em seus primeiros dias na praia, Leda logo repara em uma família napolitana grande e um pouco barulhenta. A pessoa que mais chama a atenção dela ali é Nina, uma moça jovem, que tem uma filha pequena, chamada Elena (reparem que o nome da personagem é o mesmo da autora). Durante boa parte do tempo, as duas brincam com uma boneca, que inclusive não desgruda de Elena (elas passam protetor solar juntas, vão brincar no mar juntas, ficam na areia juntas, fazem tudo juntas). 

Isso, de uma maneira muito profunda, coloca Leda em xeque, já que era justamente desse meio materno que ela estava fugindo. Essa família e, principalmente Nina, Elena e a boneca (que, neste caso, também pode ser vista como uma filha de Elena) vão fazer com que Leda acesse todo o seu histórico como mãe e analise sua relação com as filhas, assim como a relação dela com a própria mãe. Em alguns momentos, Leda parece muito madura, enquanto que em outros se mostra tão infantil quanto as próprias filhas quando pequenas.

Maternidade: o assunto chave da narrativa

Parte da maternidade descrita por Elena Ferrante é representada por uma boneca | Foto: Luiza Lamas
Em A Filha Perdida, Elena Ferrante não tem medo de expor detalhadamente os pensamentos e sensações de uma mulher que em alguns momentos fala amargamente das filhas, como se as não quisesse ter tido ou se arrependesse muito. E faz isso com muito talento, segurança e construção de personagens interessantes, inteligentes e controversas, assim como os seres humanos (e as mães) são.  

Além disso, a narrativa é cheia de núcleos maternos e todos eles encontram algum problema em algum momento. Mesmo Nina se irrita com Elena às vezes e a menina sente preocupação excessiva com a boneca, a ponto de deixá-la doente. O que é visto ali é uma maternidade real, com diversos pontos de vista diferentes sobre o mesmo assunto.

A maternidade é abordada por meio de flashbacks em que Leda fala sobre a relação dela com sua mãe, com suas filhas, e também sobre como ela mesma se sente depois de ter deixado as duas meninas seguirem suas vidas. Em alguns momentos, as lembranças são ternas, mas em outros, a sensação é que a personagem principal não aguenta mais, como no trecho a seguir, em que ela sente urgência em ser vista além do papel de mãe:

"Expliquei [ao marido] que não podia mais viver com ele, eu precisava entender quem eu era, quais eram as minhas verdadeiras possibilidades e outras frases assim. Eu não podia lhe dizer aos berros que já sabia tudo sobre mim mesma, que estava com mil ideias novas, estudando, amando outros homens, apaixonando-me por qualquer um que dissesse que eu era talentosa, inteligente, que me ajudasse a me testar". - Pág.123/124.  

Quando fala da mãe, a sensação que temos é que Leda acredita que sua infância foi um tanto incompleta, porque faltou um pouco de atenção e havia sempre pairando a ameaça de a mãe ir embora e largar Leda. Em uma passagem sobre esse assunto, a personagem principal também comenta sobre o dialeto que a mãe usava quando estava estressada: 

"Lembro-me do dialeto na boca de minha mãe quando perdia a cadência meiga e gritava conosco, intoxicada pela infelicidade: não aguento mais vocês, não aguento mais. Ordens, gritos, insultos, um prolongamento da vida nas suas palavras, como um nervo lesionado que, assim que é tocado, arranca junto com a dor qualquer compostura". - Pág. 20/21. 

Essa questão do "nervo lesionado" aparece diversas vezes na narrativa, mesmo que de forma escondida ou subliminar. Quando Nina está em paz com Elena e vive uma maternidade feliz, ela atinge o nervo lesionado de Leda; quando surgem na narrativa memórias sobre as filhas pequenas de Leda e ela se mostra uma mãe imatura ou inconsequente, é porque as filhas estão mexendo neste nervo lesionado. 

Algumas passagens, inclusive, são um tanto fortes, mas acredito que não há um momento em que culpamos Leda integralmente, já que o livro é construído desde o começo nos mostrando que a personagem principal estava extremamente feliz de finalmente poder retomar a sua vida de solteira, poder voltar a pensar nos seus sonhos e nas suas vontades. 

"Quando minhas filhas se mudaram para Toronto, onde o pai vivia e trabalhava havia anos, descobri, com um deslumbre constrangedor, que eu não sentia tristeza alguma - pelo contrário, estava leve, como se só então as tivesse posto no mundo. Pela primeira vez em quase vinte e cinco anos, não senti mais aquela ansiedade por ter que tomar conta delas". - Pág. 07. 

A Filha Perdida é um livro essencial, muito recomendado para aqueles que querem experimentar a sensação de ler obras cruas sobre maternidade. Tive contato com o livro, porque participei de um curso sobre maternidade e literatura de três encontros e em um ele foi o tema principal.

E, afinal, quem é Elena Ferrante?

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana cuja identidade é mantida em segredo. Algumas investigações já apontam para um possível nome verdadeiro, mas como é de vontade da autora não ser revelada, vamos respeitar essa posição e focar somente na contribuição desta mulher para a literatura, expondo seus pensamentos, reflexões e personagens. O que sabemos é que Elena Ferrante aprecia as entrevistas por e-mail, por intermédio de sua editora e, ao que parece, concedeu apenas uma pessoalmente, ao The Paris Review

Você já leu A Filha Perdida ou outras obras de Elena Ferrante, como a tetralogia napolitana? Deixe seu comentário sobre o que achou!

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4 comentários:

  1. Parabéns pela sua resenha, gostei muito como abriu bem sobre o tema. Tenho muita vontade de ler algo da Elena, por ser tão bem recomendado, mas essa pegada pesada sobre a maternidade não acho que seja a minha melhor experiência, tenho medo de ser cansativo e automaticamente decepcionante.

    Beijo!!

    https://www.amorpelaspaginas.com/

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    1. Obrigada, Ray!! Talvez você possa começar pela tetralogia napolitana, então? Eu ainda não li, mas tenho muita curiosidade.

      Beijo!

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  2. Indicação de leitura: Sonhos Reinventados - Angie Ammeline.

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    1. Oi, Angie! O livro é seu, não é? Encontrei-o na Amazon e vi que está no Kindle Unlimited. Vai entrar para a minha fila de leituras, hahaha.
      Obrigada, beijo!

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