Em Literatura

Os Homens Explicam Tudo para Mim | Rebecca Solnit


Autora: Rebecca Solnit
Editora: Cultrix
208 Páginas
5 estrelas 
Sinopse: Em seu ensaio icônico Os homens explicam tudo para mim, Rebecca Solnit foca seu olhar inquisitivo no tema dos direitos da mulher começando por nos contar um episódio cômico. Ela relata que um homem passou uma festa inteira falando de um livro que "ela deveria ler", sem lhe dar a chance de dizer que, na verdade, ela era a autora. Esse episódio deu origem ao termo mansplaining, para situações em que os homens explicam às mulheres coisas que elas sabem e que eles não sabem, assumindo que são superiores simplesmente por serem do sexo masculino.
Rebecca vê essa síndrome como algo que quase toda mulher tem que enfrentar todos os dias. Trata-se de um processo socializado, no qual as meninas são ensinadas a ficar caladas e os meninos aprendem a ter autoconfiança. Há versões extremas dessa síndrome - por exemplo, nos países islâmicos onde o depoimento das mulheres não tem valor legal, de forma que uma mulher não pode denunciar que foi estuprada sem que haja uma testemunha do sexo masculino para se contrapor à palavra do estuprador.
Esse ensaio viral e influente está incluído neste livro, justamente com outros, irônicos, indignados, poéticos, irrequietos - o melhor dos textos feministas de Solnit, nos quais ela analisa as diferentes manifestações de violência contra a mulher, desde o tratamento condescendente até o silenciamento das mulheres, a descredibilização, a exploração, a misoginia, o sexismo, a agressão física, a violência, a morte.
Os Homens Explicam Tudo para Mim é uma exploração corajosa e incisiva de problemas que uma cultura patriarcal não reconhece, necessariamente, como problemas. Com graça e energia, e numa prosa belíssima e provocativa, Rebecca Solnit demonstra que é uma figura fundamental feminista e uma pensadora radical e generosa.

A história

Meu contato com Os Homens Explicam Tudo para Mim foi no começo do ano passado, quando fiz a leitura da obra para escrever um artigo científico para a faculdade sobre como a dominação masculina e a violência simbólica (sim, de Pierre Bourdieu) afetam o feminino. Acabei comparando as duas obras no artigo e expliquei como o discurso de Bourdieu se aplica na vida cotidiana feminina, que estudei por meio do relato de Solnit no livro. 

Aliás, relato esse que começa com a autora contando que estava em uma festa com uma amiga quando passou por um episódio de mansplaining, termo criado a partir da junção das palavras em inglês man (homem) e explain (explicar). Ele é usado para descrever uma situação em que um homem tenta explicar algo para uma mulher, assumindo que ela não entenda sobre o assunto

O dono da festa em questão, durante uma conversa com a autora, questionou-a sobre um livro, àquela época recentemente lançado, que ela própria tinha escrito. Sem deixar Solnit falar sobre a obra ou mesmo explicar que ela era a escritora, o homem começou a contar-lhe o livro, como se ela não o conhecesse. A cada tentativa de tomar a palavra, Solnit era interrompida pelo homem. 

"Tão mergulhada estava eu no papel de ingénue que me fora atribuído que me senti perfeitamente disposta a aceitar a possibilidade de que outro livro sobre o mesmo assunto tivesse sido publicado ao mesmo tempo que o meu, sem eu me dar conta". - Pág. 12/13. 

Durante a festa, foi necessário que ela e a amiga interrompessem o homem pelo menos três vezes para que elas conseguissem se explicar e para ela, "esse tipo de confrontação, com a confiança total e absoluta dos totalmente ignorantes é típica de um dos gêneros”. - Pág. 14. 

A partir deste acontecimento e com o incentivo de outra mulher, a autora acabou por escrever então Os Homens Explicam Tudo para Mim, cujo conteúdo foi antes de tudo publicado na internet. O termo mansplaining, inclusive, passou a existir somente depois da divulgação dos escritos, mas a própria autora questiona o significado dele. 

"Tenho dúvidas sobre essa palavra e não há uso muito; parece-me um pouco pesada na ideia de que os homens têm essa falha inerente, quando, na verdade, o fato é que alguns homens explicam coisas que não deveriam explicar, e não ouvem coisas que deveriam ouvir". - Pág. 25.

Porém, obviamente, isso não impediu Solnit de criar uma espécie de “obra alerta” sobre como o machismo e a masculinidade exacerbada são prejudiciais para a sociedade num geral, mas principalmente para as mulheres. 

"O ponto principal do ensaio nunca foi sugerir que eu me julgo especialmente oprimida e sim tomar essas conversas como a extremidade mais estreita da cunha que abre espaço para os homens e fecha o espaço para as mulheres - espaço para falar, para ser ouvida, para ter direitos, participar, ser respeitada, ser um ser humano pleno e livre. Esta é uma das maneiras como, no discurso educado, o poder se expressa. O mesmo poder que, no discurso não educado e nos atos físicos de intimidação e violência, e com muita frequência na maneira como o mundo é organizado, consegue silenciar, apagar e aniquilar as mulheres, como pares, como participantes, como seres humanos com direitos - e, tantas vezes, como seres vivos". - Pág. 26 e 27.

Violência contra a mulher e estupro: os assuntos chaves da narrativa 

Existem dois pontos principais discutidos pela autora durante todo o livro: violência contra a mulher e estupro. Ela traz esses assuntos a tona por meio de exemplos de casos reais que aconteceram nos Estados Unidos ou ao redor do mundo e, a partir deles, coloca em debate outras questões próximas à esses dois assuntos centrais, como o paternalismo, a cultura do estupro e o feminismo. 

Para ela, a violência é "uma maneira de silenciar as pessoas, de negar-lhes a voz e a credibilidade, de afirmar que o direito de alguém de controlar vale mais do que o direito delas de existir". - Pág. 17.

Em outro momento, quando comenta sobre a violência contra as mulheres que resulta em assassinato, argumenta que “a violência é, antes de qualquer coisa, autoritária. Ela começa com esta premissa: ‘Eu tenho o direito de controlar você’”. - Pág. 40.

Segundo a autora, uma das razões que favorecem o aparecimento da violência é a falta de linguagem, de transmissão de significado e deste poder para elucidar e dar importância a esses acontecimentos. Por conta disso, a violência contra a mulher e o estupro acabam ficando em segundo plano, não parecendo ser importantes para a sociedade ou não merecendo uma discussão aprofundada que venha de todas as instâncias sociais (escola, trabalho, casa, Estado). 


"Se você não tem palavras para nomear um fenômeno, uma emoção, uma situação, não poderá falar a respeito, o que significa que não poderá se reunir com outras pessoas para tratar do problema, e muito menos mudar a situação" - Pág. 165/166.
A autora utiliza como um dos exemplos para mostrar a importância da significação das palavras o termo cultura do estupro,

"um ambiente em que o estupro é predominante e a violência sexual contra as mulheres é normalizada e desculpada na mídia e na cultura popular. A cultura do estupro é perpetuada pelo uso da linguagem misógina, a objetificação do corpo da mulher e a glamorização da violência sexual, criando assim uma sociedade que ignora os direitos e a segurança das mulheres. A cultura do estupro afeta todas as mulheres. A maioria das mulheres e meninas limita seu comportamento devido à existência do estupro. A maioria das mulheres e meninas vive com medo do estupro. Isso não acontece com os homens, de modo geral. É assim que o estupro funciona como um meio poderoso pelo qual toda a população feminina é mantida numa posição subordinada a toda a população masculina, apesar de que muitos homens não estupram, e muitas mulheres nunca são vítimas de estupro" - Pág. 166/167.  

Para a autora, está claro que a divulgação e conhecimentos sobre a cultura do estupro advém do trabalho dos movimentos feministas realizados até hoje, que também ajudaram a dar voz às mulheres, ratificar os direitos delas e a criar leis que julgassem como crime abusos contra o sexo feminino. Além disso, o feminismo favoreceu o crescimento do número de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, ao lutar para transformar uma relação potencialmente hierarquizada em uma que estivesse em maior conformidade. 

Você já leu Os Homens Explicam Tudo para Mim ou algum outro livro da Rebecca? Leu livros sobre violência contra a mulher? Me conta nos comentários e fale também o que achou da resenha e do assunto! 

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